Menino deitado em ômega
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Há duas décadas, Alexandre Bonafim, discretamente, vem gestando sua obra, rara, às vezes, enigmática, sempre delicadamente violenta, erigindo um conjunto que, ao todo, desvela o desenvolvimento de um projeto coeso, fiel à sua diretriz estética, fecundada por um olhar atento à sacralidade do corpo e da palavra.
Desde Biografia do deserto até esse mais recente Menino deitado em ômega, Bonafim desvelou sua natural tendência poética, natureza essa que se irradia por todo o seu ser, pela vastidão do corpo e o espírito, pois, para o autor, a poesia não é somente uma práxis linguística, é também, sobretudo, uma experiência existencial, um vínculo fecundo com a condição humana, com o mistério da vida e o sagrado.
Alexandre pertence àquela estirpe de poeta que busca a expressão lírica acima de tudo, tal como preconizava Novalis: “o poético é o autêntico real absoluto e quanto mais poético tanto mais verdadeiro. Assim, numa luta permanente com a palavra, o escritor de Sagração das despedidas erige uma obra que, ao se comunicar com os poetas do cânone, se potencializa por meio metáforas capazes de aturdir, de alucinar e de acender, no leitor, um novo clarão de consciência sobre a sexualidade e a própria poesia.
Poeta queer, ciente de seu destino de pária em mundo tomado pelo capitalismo vulgar, pela voracidade alienada da vida virtual da internet, num mundo em ruínas em que a sacralidade perdeu totalmente sua força e ímpeto, Alexandre elege as grandes vozes de nossa escrita homoerótica como emblema de sua resistência à precarização da vida pós-moderna, marcada pela violência do patriarcado: Konstantino Kaváfis, Lorca, Sandro Penna, Walmir Ayala, Júlio Aumente, Francisco Brines e, sobretudo, o autor que ele afirma ser o poeta de sua vida, seu mestre entre mestres, Luis Cernuda.
Gabriel Açucena
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